Fim de ano é sempre assim: realizamos uma retrospectiva do ano que está acabando e traçamos nossos planos para o ano que está por vir. Bueno, vou tentar seguir nesta linha de raciocínio, com uma pequena diferença que é a de fazer uma retrospectiva dos últimos 8 anos, na tentativa pretensiosa de demarcar este período como uma nova era para nosso país.
Os últimos 8 anos, período esse que coincide com o início da era Lula, foram anos onde alguns paradigmas foram superados por outros, num processo dialético de transformações no mundo inteiro. Em 2002, saíamos de praticamente duas décadas onde o neoliberalismo era o paradigma dominante e a concepção de Estado Mínimo foi vitoriosa, não obstante os gritos dos movimentos sociais e dos partidos políticos contrários a este projeto. Foram vinte anos de sucateamento do Estado, de privatizações, de queda da qualidade na educação, na saúde e, consequentemente, da qualidade de vida da população. E isto não ocorreu por acaso ou por meros equívocos técnicos por parte de quem estava no governo. Isto ocorreu por que fazia parte do projeto de sociedade daqueles que governaram este país por muitos anos, fazendo dele o paraíso de poucos e o inferno de muitos. Felizmente, parece que este tempo foi definitivamente enterrado no ano de 2010, embora eu não queira dizer com isso que os nossos problemas foram todos resolvidos. Mas o que começou em 2002 e, na minha modesta opinião, foi consolidado em 2010, é o amadurecimento da população brasileira em relação ao projeto de sociedade que não serve para nosso país, e também em relação aos direitos elementares que nos foram negados durante muitos anos. Me refiro aqui ao direito à alimentação, à saúde pública, à educação pública em todos os níveis, direito a sermos donos das nossas riquezas e não vendê-las a preço de banana aos estrangeiros e também ao direito de decidirmos nosso próprio futuro, sem termos que consultar os EUA sobre o que eles acham disso ou daquilo. Resumindo, direito a termos um país soberano e mais justo para todos. Isso tudo começou em 2002, mas ainda temos muito o que fazer daqui pra frente.
Feita a retrospectiva, que tarefas teremos nós para os próximos anos? Penso que primeiramente é ampliarmos algumas questões, como a distribuição de renda, o fortalecimento do Estado, o acesso à universidade, seja através do ProUni ou do aumento das vagas nas universidades federais, entre outras. Mas fundamentalmente, precisamos começar a aprofundar as mudanças estruturais que o Brasil tanto necessita. Não conseguiremos aqui neste texto detalhar uma por uma, mas quero pelo menos citar as que para mim são indispensáveis: reforma urbana, reforma agrária, reforma política, democratização da mídia, do judiciário e das forças armadas e também uma reforma tributária. Para atendermos a todas essas demandas, é preciso muito mais do que boa vontade por parte do novo governo que tomará posse no primeiro dia do ano e que terá à frente uma mulher que já provou para todos que não tem medo de enfrentar os poderosos deste país. Será preciso, acima de tudo, muita mobilização social, pois alguns temas enfrentarão forte resistência dos setores mais conservadores da nossa sociedade, como por exemplo a democratização da mídia, do judiciário e das forças armadas. Entretanto, sem cumprirmos estas tarefas, será impossível termos uma país realmente justo, assim como não é possível obtermos justiça social com tantos latifúndios improdutivos no país, ou com tanta especulação imobiliária nas cidades. Também não podemos esquecer que não é justo que os pobres paguem o mesmo, ou muitas vezes mais impostos do que os ricos.
Como vimos, não são poucas as nossas tarefas para o próximo período. Então, mãos à obra, pois coragem a gente já demonstrou ter. Afinal, já fazem oito anos que a esperança venceu o medo.
Paulo Amaro Ferreira
Acadêmico de História
Coordenador de Assistência Estudantil do DCE








