por Daniela Anunciação e Raquel Duarte
“Mães do Mariani”, assim ficaram conhecidas as moradoras do bairro Mariani de Caxias do Sul, que se tornaram um exemplo de organização e luta das mulheres na cidade.
Elas saíram da reunião do Orçamento Comunitário do bairro (processo que substitui o Orçamento Participativo no município) com a certeza de que em breve teriam a tão esperada escola de educação infantil. Não podiam imaginar que aí iniciaria um verdadeiro martírio.
Em fevereiro deste ano, a prefeitura autorizou o início das obras. Porém para total surpresa no terreno destinado à construção da “creche”, seria construída uma área de lazer.
Como assim? Ficaram sem entender como é que a grande prioridade do bairro – escola de educação infantil – tinha se transformado de uma hora para outra em uma área de lazer. Mas elas não ficaram paradas.
A luta das mulheres pelas “creches públicas”, não é uma luta recente. Estudando a história do feminismo, percebe-se que em meados do século XIX, feministas como Clara Zetkin, Alexandra Kolontai, entre outras, afirmavam o papel do Estado na socialização das tarefas domésticas, por meio de serviços como lavanderias, restaurantes populares e “creches”.
Essa luta continua muito atual. A construção de escolas de educação infantil tornou-se um direito da criança e uma política pública para as mulheres O acesso às escolas de educação infantil é um direito da criança, uma vez que é a primeira etapa da educação básica, e, portanto, é um dever público.
Sem “creches públicas”, impossível caminhar na direção da igualdade entre homens e mulheres. Claro, numa sociedade onde é latente a divisão sexual do trabalho, a quem recai a responsabilidade das tarefas do cuidado e da educação?
A garantia de vagas em “creches públicas” constitui-se uma política pública básica para o acesso e a permanência das mulheres no mercado de trabalho, também para acesso ao lazer, à educação e participação em espaços da sociedade. Reafirmando: a educação infantil, é um direito da criança, da mulher, da família, e responsabilidade do Estado.
Sentindo-se extremamente injustiçadas, as mães do Mariani uniram-se para reivindicar seus direitos. Com a chegada das máquinas no terreno onde seria construída a área de lazer, impediram o início das obras com seus próprios corpos.
Em outro momento, participaram de audiência pública, cobrando posição d@s vereador@s do município, entregaram abaixo assinado para o Ministério Público, fizeram manifestações em frente à prefeitura, exigindo resposta do Prefeito, e nada.
Mas elas não se cansaram. Ocuparam simbolicamente o Centro Comunitário do Bairro, e lá organizaram uma “creche comunitária”. Fizeram alimentação e organizaram atividades para mais de quarenta crianças. E a resposta do poder público municipal, para espanto, ou não, foi dizer que a partir de agora, a mobilização das mulheres se tornara um caso de polícia, mostrando total ou desrespeito para com os direitos humanos.
Mais uma vez, as mulheres não se intimidaram. Elas conhecem seus direitos!
Ora, o centro comunitário pertence aos moradores do bairro, e como sócias da Associação do Bairro, têm todo o direito de ocupá-lo pacificamente.
Ainda sem obter qualquer retorno positivo para a demanda, no dia 21 de março, as mulheres fizeram uma caminhada, de 10 Km, do bairro Mariani até a prefeitura, passando pela Avenida Júlio de Castilhos, parando o trânsito, e chamando a atenção da população para a sua luta, que não é só delas, e sim de toda a cidade. A final, a realidade da educação infantil no município tem se mostrado muito aquém das necessidades da população do município. Ao chegar na Prefeitura entregaram um documento ao representante do prefeito, com suas reivindicações.
Resulto? Infelizmente ainda nenhum. A prefeitura continua defendendo a prioridade da construção da área de lazer, deixando a construção da “creche” a segundo plano, ou melhor, fora dos planos, demonstrando um total desrespeito com toda a população, e uma insensibilidade tamanha com a luta das mulheres.
Neste exato momento, as mulheres estão acampadas no local onde deveria estar sendo construída a escola de educação infantil. Estão lá, com suas crianças, dia e noite, sob chuva e sol, contando com a solidariedade dos vizinhos e parceiros, e de lá, prometem não sair até uma resposta positiva do poder público
As “Mães do Mariani” estão irredutíveis, incansáveis. Sua dura jornada já completará dois meses. Elas só querem que a prioridade eleita pelos moradores do bairro seja respeitada.
A luta das “Mães do Mariani” é uma luta de todas as mulheres. Construção de Escolas de Educação Infantil tem que ser prioridade. Esse é um problema enfrentado em diversos bairros da cidade. Todo apoio e solidariedade à luta das “Mães do Mariani”!