Escrevo este texto, para tratar sobre dois temas estreitamente interligados entre si: a família (monogâmica patriarcal) e o matrimônio. Quando falamos em família, já pré-estabelecemos um modelo que nos foi inculcado desde a tenra infância: um pai (o provedor), a mãe e os filhos. Este é o modelo de família que concebemos como o “normal”. Seguindo este raciocínio, temos já então um modelo de união conjugal: o matrimônio monogâmico católico (e hoje em dia incluímos aqui as mais diversas igrejas cristãs). Eis então dois elementos seriamente ameaçados pela sociedade contemporânea.
O modelo monogâmico patriarcal de família serviu perfeitamente à consolidação e perpetuação do sistema social vigente, ou seja, o capitalismo. Não vou aprofundar-me neste ponto específico aqui neste espaço, mas deixo uma boa dica de leitura para os interessados: “A Psicologia de Massas do Fascismo” de Wilhelm Reich. Porém, a falência deste modelo de família não significa a derrocada deste modelo de produção. Mas, como nos diz um axioma do direito, "contra fatos não há argumentos". Nos deparamos hoje com algo que nem os mais entusiastas do catolicismo conseguem esconder: há uma forte crise no modelo de família e de matrimônio cristãos. Nossos pais são talvez, a última geração de marido e mulher que vivem um único matrimônio. Ainda assim, muitos de nós já somos filhos de pais separados. E isso tende a aumentar. Não por que um belo dia os homens e mulheres acordaram e decidiram que não queriam mais casarem-se, terem filhos, e viverem juntos até o fim de suas vidas, mas por que a dinâmica social já não é mais a mesma do que a de 50 anos atrás.
Entretanto, não podemos deduzir, a partir da verificação da ruína da família e do matrimônio cristãos, que o modelo de sociedade que vivemos está ruindo. Pelo menos não em seus traços fundamentais. O que estamos observando é uma alteração em alguns pontos da superestrutura do capitalismo, mais especificamente do ponto de vista ideológico religioso. Mas em seu âmago, o capitalismo continua atuando da mesma forma, com seus mesmos mecanismos de exploração, que foram apenas adequados aos novos tempos. Se fôssemos realizar uma análise hegeliana, ou ainda weberiana deste fenômeno, poderíamos facilmente chegar à conclusão de que o capitalismo estava ameaçado ou que ele estava se modificando em suas estruturas. Mas do ponto de vista do materialismo histórico, isso representa apenas uma leve alteração em alguns padrões culturais, insuficiente, até por que não têm este propósito, de alterar o sistema por completo.
Nesta mistura de teorias a respeito da religião, vou permitir-me encerrar com o sarcasmo nietzscheano: os noivos juram amor eterno, o padre os abriga a tal ato, após vem o divórcio e a negativa da igreja a um próximo matrimônio. Santa hipocrisia social. E o pior de tudo isso, é que todos os envolvidos sabiam de tal desfecho!
Paulo Amaro Ferreira
Acadêmico de História
Coordenador do DCE UCS