A Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) vive um dia histórico nesta sexta-feira, 2. Pela primeira vez, nos seus quase nove anos de existência, a comunidade escolar irá escolher seu representante para os cargos de reitor e vice.
A conquista do poder de voto para a instituição só foi possível graças a um isolamento político da atual administração. Indicado pela governadora Yeda Crusius e contrário ao processo eleitoral, o reitor Carlos Alberto Martins Callegaro sofreu forte desgaste político junto à comunidade acadêmica em decorrência da crise institucional da universidade. Os problemas já conhecidos desta instituição, como a evasão de professores, o não reconhecimento de cursos, deixando alunos formados sem diplomas, a eminência do fechamento de algumas graduações, a falta de livros e equipamentos de informática se agravaram ainda mais neste ano. O Governo do Estado apresentou para 2010 a menor previsão orçamentária da pequena história desta instituição, projetando a execução de somente R$ 27 milhões em investimento. O valor é 10% inferior ao de 2009.
A universidade conta atualmente com 100 professores, 150 funcionários e mais de 2000 estudantes. O colégio eleitoral é constituído por alunos, regularmente matriculados, professores e técnicos administrativos concursados, que fazem parte do quadro permanente de servidores. Todos as 24 unidades da Universidade e o prédio da Reitoria terão locais de votação. As urnas abrem das 14h às 19h, em função do jogo do Brasil pela Copa do Mundo. A apuração dos votos está marcada para a próxima terça-feira (6) e a divulgação dos resultados no dia seguinte (7).
Três chapas concorrem
A eleição desta sexta finalmente regulariza a Lei Estadual 11.646, de 2001, que criou a universidade. Nela está prevista que a comunidade escolar deve escolher seus representantes a reitoria. Concorrem ao pleito três chapas: ‘Gestão Compartilhada’, ‘Universidade na Diversidade’ e ‘Inova Uergs!’. Todas são unânimes em afirmar que a instituição está em crise e se declaram oposição a atual reitoria.
O professor de Engenharia João Alifantes, representante da chapa 'Gestão Compartilhada', avalia que as dificuldades da Uergs se devem a forma como a universidade foi administrada até agora. “São as gestões centralizadoras, sem o envolvimento da comunidade, que motivaram esta situação de crise que a Uergs vive. Acredito que seja necessário um projeto de universidade que fortaleça os laços nas regiões onde a universiade existe”.
Já o professor de Gestão Ambiental Fernando Guaragna Martins defende uma mudança de foco na gestão. “A universidade deve se voltar mais para a sociedade e menos para o governo”. Para ele, que representa a chapa ‘Inova Uergs!’ a instituição, mesmo com a crise, apresenta qualidade. “A Uergs é uma instituição diferenciada e se retomar o diálogo com a sociedade pode contribuir com o desenvolvimento do Estado.
A representante da chapa 'Universidade na Diversidade', a professora de Língua Inglesa Ana Maria Accorsi, propõe mudar a natureza jurídica, transformando-a em Autarquia (atualmente a instituição é de direito privado). “A universidade Estadual deveria ser um órgão hibrido. É justamente nesse momento eleitoral, em que a instituição ainda não está consolidada, que se deve debater o que se quer dela, e nossa chapa defende esta mudança”. De acordo com a professora a atual reitoria, quase deixou a universidade “morrer à míngua”.
Estudantes participam das eleições
Apesar da crise, a qualidade do ensino prestado na universidade é reconhecida pelos alunos que estudam na instituição. “Estudo na universidade porque os professores são muito qualificados. Os estudantes e professores resistem às deficiências da instituição e acreditam no seu potencial”, diz Alexandra de Castilhos, aluna de Licenciatura em Dança na unidade de Montenegro e integrante da diretoria da UEE Livre -RS (União Estadual dos Estudantes Livre do estado).
De acordo com ela, a expectativa de participar de um processo eleitoral significa um momento de abertura democrática da gestão universitária. “Na atualidade, os alunos vêem a Uergs como um filho sem pai nem mãe. Onde estudo, não há transporte. As pessoas saem antes de encerrar a aula, devido aos horários limitados de transporte e não há como voltar para casa depois. A reitoria da Uergs lava as mãos quanto a esse e outros assuntos e não faz nada para qualificar a oferta de transporte. O estudante não tem o mínimo de acesso às decisões da universidade na atualidade. Acredito que com uma nova gestão, escolhida por nós, estudantes e comunidade em geral, isto pode mudar”, frisa Alexandra. Ela ainda lembra que seu curso, assim como os outros três da unidade Montenegro (Artes Visuais, Teatro e Música), ficaram três anos sem abertura de vestibular, devido a falta de professores.
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