Compartilhamos o texto de opinião do estudante Paulo Amaro Ferreira do curso de História. Envie você também o seu artigo.
Mais um processo eleitoral se avizinha e os debates aos poucos passam a ser mais frequentes. Embora uma das partes envolvidas nesta disputa tenha adotado como tática, para ganhar as eleições, ataques de cunho pessoal aos adversários, o que está em jogo vai muito além do que nossa vã filosofia possa imaginar. Mas para entendermos onde estamos no meio disso tudo, precisamos retroceder um pouco no tempo.
Após as duas grandes guerras do século XX, o imperialismo provocou três principais reações, sendo duas delas nos países periféricos e uma nos países capitalistas já desenvolvidos. Nestes, mais especificamente nos países escandinavos, implantou-se o chamado Estado de Bem Estar Social. A construção destes Estados foi também uma resposta à Revolução Russa, que havia implementado uma série de melhorias para os trabalhadores daquele país. Já no caso dos países da periferia do capitalismo, as políticas imperialistas fazem com que uma parte deles tome a via do desenvolvimentismo nacional, priorizando a indústria nativa e enfrentando muitas vezes o capital estrangeiro e outra parte inicie processos de construção do socialismo.
Durante o período da Guerra Fria, os dois blocos hegemônicos liderados por Estados Unidos de um lado e União Soviética de outro, lutavam por aumentar sua influência no globo. Com a crise do petróleo em 1973, o capitalismo sofre um golpe considerável e entram em crise tanto o desenvolvimentismo conservador, como também o Estado de Bem Estar Social. No caso do Brasil, a ditadura militar, que havia desenvolvido a infra-estrutura do país e concluído o processo de industrialização iniciado por Vargas, o fez com capital estrangeiro, emprestado a juros flutuantes. Durante o governo Figueiredo, os EUA aumentaram os juros, aumentando também a dívida externa e deixando o país numa grave crise econômica. É neste contexto que surgirá o neoliberalismo, tendo como principal objetivo a redução da participação do trabalho na divisão das riquezas da sociedade.
A década de 1980 foi a década perdida na economia de muitos países. A ditadura militar brasileira já estava em descrédito e era acusada inclusive por setores da direita por ser excessivamente estatizadora. Também era combatida pela esquerda por todos os crimes cometidos e pela crise econômica em que mergulhara o país. A situação ficou insustentável, principalmente após a eclosão dos movimentos grevistas no final dos anos setenta. O neoliberalismo chega então para derrotar as três experiências desenvolvidas em resposta ao imperialismo.
Os países da América Latina haviam entrado numa forte onda neoliberal, principalmente com o advento dos anos noventa. Desemprego, privatizações, terceirizações, miséria, taxas de juros elevadas, abertura completa ao capital estrangeiro e predomínio absoluto do capital financeiro especulativo, foram as tônicas desta década. O Brasil ficou numa situação econômica insuportável, principalmente para a classe trabalhadora. Ao findar dos anos noventa, o modelo neoliberal encontrava-se esgotado. Uma série de derrotas eleitorais foram impostas aos entusiastas do mercado, iniciando uma nova fase no continente latino-americano.
O neoliberalismo ainda não foi derrotado inteiramente, mas a sua crise recoloca na ordem do dia os três modelos de desenvolvimento que haviam sido derrotados por ele anteriormente: o estado de bem estar social, o desenvolvimentismo e processos de construção do socialismo. Em nosso continente, há governos que reivindicam-se socialistas e há outros que retomam o modelo desenvolvimentista. É exatamente isso que estará em disputa nessas eleições. O mundo inteiro está com os olhos postos no Brasil. Dependendo do resultado das eleições, o continente poderá aplicar um grande golpe no modelo de desenvolvimento que o deixou subserviente ao capital estrangeiro por muitos anos, ou então podemos voltar ao estágio de dependência econômica e política a que historicamente fomos submetidos. É isso que está em jogo. Não nos enganemos com campanhas que querem focar o debate em questões pessoais. A história nos ensina. Aprendamos com ela.
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